500 ANOS DA REFORMA

Sola Fide!

Roberto Alexandre, 39 anos, casado e pai de dois filhos. Apaixonado por Jesus, foi chamado a pregar o Evangelho e despertar pessoas para atenderem ao chamado do Senhor

04 de outubro de 2017

No dia 31 de outubro comemoraremos os quinhentos anos da Reforma Protestante. Uma data que deve nos fazer celebrar ao Senhor por aquilo que Ele fez na história e por sermos herdeiros de bênçãos que homens como Lutero, Zuínglio, Calvino e tantos outros deixaram para as gerações futuras. Mas o meio século da reforma também deve nos fazer refletir, questionar e buscar no Senhor respostas para tantos males que a igreja vive nos dias de hoje, assim como vivia na época dos reformadores.

Pensando nisso, a UMIC decidiu lançar uma série de artigos comemorativos a essa data tão importante para os cristãos evangélicos. Não pretendemos assumir o papel de teólogos ou mestres do saber, mas apresentar uma reflexão que vem de corações que têm desejado e experimentado a graça de um Deus maravilhoso. A cada semana um jovem líder escreverá sobre um dos temas das Cinco Solas da Reforma Protestante – reforma essa que surge em um contexto caótico para o cristianismo europeu.

A igreja católica havia expandido suas fronteiras por todo o continente e chegara até mesmo além mar. Mas infelizmente isso não significava que o crescimento numérico e territorial fosse um sinal da bênção de Deus sobre o seu povo ou mesmo que tal avanço fosse fruto de ações missionárias de cristãos cheios do Espírito Santo, que compartilhavam o amor de Deus entre os povos. Pelo contrário, a igreja havia se tornado, por vezes, opressora e controlava as massas por meio da ignorância, proibindo traduções da Bíblia Sagrada nos idiomas em que os fiéis pudessem ler (as traduções vigentes da época eram todas em latim ou grego, línguas que, em geral, somente os sacerdotes liam).

Dessa forma, os clérigos passaram a aproveitar-se da ignorância do povo e por meio de ensinos, que não transmitiam da as verdades Palavra de Deus, exploravam as massas, exigindo sacrifícios e doações para que alcançassem as bênçãos. Contudo, o Senhor sempre preserva o remanescente e mesmo que o contexto seja de caos e infidelidade, a voz profética surge, bramindo contra as trevas e anunciando a vontade de Deus.

Homens como John Wicliffe, Jerônimo Savanarola e Jan Hus pagaram com suas vidas o preço de sua lealdade a Deus e à sua Palavra. O último, ao ser queimado vivo, exclamou: “Podem matar o ganso (em alemão, sua língua materna, Huss significa ganso), mas daqui a cem anos, Deus suscitará uma crise que não poderão queimar!” O tempo passou, e no dia 31 de outubro 1517, 102 anos após morte de Hus, Martinho Lutero afixou na porta do castelo de Witenberg as suas noventa e cinco teses, cujo teor resume que Cristo requer arrependimento e fé do homem e não meras penitências pelo pecado. O monge agostiniano continuou sua peregrinação em busca de conhecer a graça de Deus e seus estudos prosseguiram, surgindo assim as cinco solas da reforma (Só a Fé, Só a Graça, Somente Cristo, Só as Escrituras e Somente para a Glória de Deus). Teses que nortearam e norteiam até hoje a teologia reformada. Hoje trataremos da fé, ou como diriam os reformados de Sola Fide.

Lutero era um monge católico e professor de Teologia, que durante anos viveu em constante crise existencial e de fé, pois, ainda que se dedicasse a cumprir as normas da igreja e a viver asceticamente, nutria dentro de si um elevado senso de culpa e um terrível medo da ira de Deus, até que um dia, ao estudar o livro de Romanos, entendeu pelo Espírito que “o homem é justificado pela fé, independente das obras de lei” (Romanos 3:28). A partir dali, sua vida mudou e essa mudança acarretou em atitudes que repercutiram em toda a cristandade da época, ecoando até os dias de hoje.

A Igreja Católica Romana experimentava grande prosperidade financeira e suntuosas construções eram realizadas ao redor do mundo com o dinheiro arrecadado entre os fiéis, que compravam as famosas indulgências papais, crendo na promessa de que elas lhes garantiriam bênçãos como: perdão de pecados (presentes e futuros), salvação de entes queridos que já haviam morrido e etc. Emissários papais percorriam o vasto território alcançado pela igreja, pregando as bênçãos advindas das indulgências e a necessidade que os fiéis tinham de demonstrarem sua fé através de sacrifícios que atrairiam a graça divina para si.

Um desses homens, Totzel, um padre dominicano, chegou à paróquia de Lutero e lá começou uma campanha a fim de arrecadar fundos para Roma. Esse dinheiro seria aplicado na construção da Basílica de São Pedro, que estava sendo construída naquela época. Tal situação trouxe grande indignação a Lutero, que  diante de suas convicções e dos horrores que via serem praticados em nome fé cristã, decidiu afixar suas noventa e cinco testes no porta do castelo de Witenberg, como dito anteriormente. Pode-se dizer que esse é o marco inicial da Reforma Protestante.

É nesse contexto que a pregação da Fé Somente surge como a verdade de Deus, que contrapunha a pregação das indulgências papais. Lutero começou a ensinar que “no evangelho é revelada a justiça de Deus, uma justiça que do princípio ao fim é pela fé, como está escrito: O justo viverá pela fé!” (Romanos 1:17). Em suma, ele pregava que não eram os sacrifícios ou até mesmo o esforço dos homens em demonstrarem justiça  por meio da religião que  os fariam merecedores da salvação, “Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto de não vocês, é dom de Deus; não por obras, para que ninguém se glorie.” (Efésios 2:8-9).

A partir daí, a mensagem do evangelho da graça de Deus foi incendiando o coração do monge e por esse motivo ele expulso da igreja católica ao manter-se fiel às suas convicções. Lutero começou a proclamar que a fé não era algo que precisava ser demonstrado por méritos, mas sim a forma como o pecador se apropriava da obra redentora da cruz! Muito mais do que acreditar em Jesus, os homens deveriam confiar em sua obra redentora, arrependendo-se de seus pecados, confiando seus caminhos a Ele e assim seriam justificados. Sendo essa a forma de Deus demonstrar sua justiça e misericórdia ao pecador arrependido que confia em Jesus. Não eram as indulgências papais, as observâncias às regras da igreja, o temor ao clero ou as práticas ascéticas que fariam o homem justo diante de Deus, mas a fé em Cristo! A certeza de que Ele pagou o preço dos pecados dos homens e de que agora era capaz de fazê-los merecedores das bênçãos de Deus!

Que essa mensagem ecoe em nossos corações hoje e o remanescente levante-se em meio à igreja brasileira para proclamar a mensagem da cruz!

Amém.