UNÂNIMES

Adaptabilidade

Allan Freire,  29 anos, Advogado, Cristão peregrino e Servo aprendiz

13 de Setembro de 2017

“…foi enxertado entre os outros e agora participa da seiva que vem da raiz da oliveira cultivada…” Rm. 11:17

O texto de João 15 fala da videira verdadeira, Jesus. O mesmo texto nos apresenta os cristãos como ramos, os quais precisam estar ligados à videira para permanecer vivos. Os conselhos dessa alusão feita por Jesus é que permaneçamos Nele, no Amor e na Palavra. Neste conselho vale a pena atentar-se para o verbo permanecer, na linguagem bíblica NVI¹, o verbo é citado doze vezes apenas neste capitulo. O resultado de permanecer ligado a videira é gerar bons frutos, frutos que também permaneçam.

O mais interessante no meio disso tudo é que nós, os gentios, somos ramos que não nasceram diretamente da árvore, e sim, fomos enxertados a ela. Em Romanos 11, Paulo trata de alguns ramos naturais (judeus) que foram cortados e de alguns ramos que foram inseridos a árvore (gentios). Vejamos:

“Se alguns ramos foram cortados, e você, sendo oliveira brava, foi enxertado entre os outros e agora participa da seiva que vem da raiz da oliveira cultivada, não se glorie contra esses ramos. Se o fizer, saiba que não é você quem sustenta a raiz, mas a raiz a você. Então você dirá: “Os ramos foram cortados, para que eu fosse enxertado”. Está certo. Eles, porém, foram cortados devido à incredulidade, e você permanece pela fé. Não se orgulhe, mas tema. Pois, se Deus não poupou os ramos naturais, também não poupará você.” (17-21)

Como um ramo enxertado, temos que nos adaptar a nova forma de ser. A nova fonte de vida dá os nutrientes necessários para viver com a nova natureza em Cristo Jesus, e como o texto aponta, a liga que nos faz permanecer é a fé.

Pensando nos tempos atuais, quais são as dificuldades de adaptabilidade dos novos ramos (novos convertidos) ao Reino iniciado por Jesus? O que impede a geração atual a se adaptar aos padrões do novo Reino? É sobre este prisma que este breve artigo te levará a pensar.

Há anos está em discussão dentro do Movimento de Restauração Stone Campbell (movimento que originou as Igrejas de Cristo) sobre quais são os nossos “essenciais” e até se devemos defini-los ou não. Um dos lemas adotados pela igreja é “No essencial unidade; no não essencial liberdade; em todas as coisas o amor”. É claro que não vou aqui me atrever a adentrar a esta questão, mas, com muita clareza e convicção podemos citar alguns “não essenciais” que acredito poderá facilitar à adaptabilidade de novos ramos a videira e também poderá adequar melhor alguns ramos que mesmo ligados a ela, parecem viver em um corpo estranho.

Olhando de fora, tornar-se evangélico mais parece seguir um conjunto de normas e condutas do que simplesmente o que a bíblia traz: fé em Jesus, arrependimento, batismo, busca da santidade e salvação. A igreja moderna tornou-se um grupo social que tem usos, costumes e linguagens próprias e quase sempre essa comunicação não atinge o seu público alvo, os não crentes. Queremos a todo custo comunicar com um mundo que não fala a nossa língua, e muito pouco buscamos aprender uma linguagem que os alcance. Ao dizer linguagem, não me refiro apenas à fala, por mais que esta seja importante, mas a comunicação em geral: visual, musical, linguística, vestimentas e etc.

Mesmo no inicio do evangelho as discussões iam neste sentido: “circuncidar-se ou não?”, “guardar o sábado ou não?”, “ não lavar as mãos antes de comer o pão, contamina ou não?”. Hoje, essas questões estão superadas em nosso meio, contudo, continuamos andando na mesma direção de pensamento. O que quero dizer com isso é que a prática religiosa cria modos de vida que mesmo sendo parte dos “não essenciais”, mais parecem “essenciais” para que as pessoas convivam no nosso meio. A principal mudança proposta pelo evangelho de Jesus Cristo é em nosso interior, ou seja, quem somos. É natural que esta mudança produza alguns resultados práticos e visíveis, mas, este não é o objetivo fim do evangelho.

A verdadeira adaptabilidade que o evangelho de Jesus propõe é no modo de ver o universo. Quando aceitamos a Cristo passamos a ter uma cosmovisão sob a perspectiva cristã. Nossos relacionamentos mudam, o modo de tratarmos as pessoas muda, seja na igreja, trabalho, escola ou em qualquer outro ambiente que estejamos. O texto de João 15 citado acima termina com a seguinte conclusão: “amai uns aos outros”. Adaptar-se ao reino inaugurado por Jesus é ter este princípio como base de todas as ações diárias. Quando se vive sob esta ótica, tudo muda, e como o próprio lema traz: “em todas as coisas o amor”.

Ao entender isto, a igreja moderna precisa melhorar a sua forma de comunicar. Ouvindo o testemunho de um pastor de uma cidade de interior, ele contou como Deus o orientou a se comunicar melhor com o seu povo: “abandone o seu terno e ande como o seu povo”. Acredito que a igreja atual precisa “abandonar o terno”, e aqui não digo no sentido literal, mas sim, reavaliar como temos nos comunicado com esta geração. Será que o formato de culto, vestimentas, comunicação visual, ritmos e demais práticas da igreja tem comunicado com a sociedade a qual está inserida? Observando a idade média dos membros, e velocidade de crescimento, parece que não.

Os nascidos de novo e chamados para anunciar o reino de Jesus Cristo precisam ler melhor a sua geração. Mais do que guardar tradições, precisamos alcançar os corações. É muito claro que temos um legado para dar continuidade, não podemos abrir mão disso, tão pouco, abandonar tudo que foi feito até aqui. Contudo, precisa-se mostrar para o mundo que mais do que mudar a sua agenda de domingo, o evangelho da salvação quer mudar o seu interior. O evangelho é libertador, corremos o risco de falhar na comunicação e continuar a anuncia-lo como uma prisão.